O demolidor que diz que pode fazer tudo com um sorriso

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No fim da cimeira informal de Bratislava de 16 de setembro, um encontro a 27, sem o Reino Unido, os líderes europeus praticamente limitaram-se a palavras de circunstância. O grande objetivo era, mais do que mostrar unidade, pelo menos não mostrar desunião. Só uma voz destoou do coro. Foi a de Matteo Renzi. “Não estou satisfeito. Não sou daqueles que, depois de uma cimeira, diz às pessoas que tudo vai correr bem e que as rosas vão florescer. Não posso fazer uma conferência de imprensa conjunta com a chanceler alemã e com o presidente francês porque não partilhamos as conclusões na mesma medida”, disparou o primeiro-ministro italiano.

Não é sem razão que em Itália é conhecido como O Demolidor – Il Rottamatore. Renzi chegou à chefia do governo em fevereiro de 2014, tinha 39 anos acabados de fazer, e tornava-se no mais jovem italiano de sempre a liderar um executivo. Nunca fora deputado e a experiência em cargos públicos resumia-se praticamente aos cinco anos (2009-2014) em que estivera à frente do município de Florença. Bateu o recorde de Benito Mussolini, que era 52 dias mais velho quando assumiu o poder, em 1922.

“Mesmo quando era criança, dava para ver que estava destinado a ser o número um. Mas acho que nem ele pensava que chegaria tão longe”, explicava ao The Telegraph, em 2014, Giovanni Sassolini, um padre da paróquia natal do primeiro-ministro, nascido em Florença em 1975.

Matteo Renzi ascendeu à liderança do Partido Democrático em dezembro de 2013, assegurando ao então chefe de governo, Enrico Letta, que não estava interessado no posto. Não tardou muito até mostrar que afinal não era assim. A 13 de fevereiro o comité nacional do partido votou favoravelmente uma moção de Renzi que apelava à necessidade de uma mudança governamental. Nesse mesmo dia, escassos minutos depois, Letta apresentava a sua demissão e abandonava o cargo que ocupara apenas durante dez curtos meses.

Era chegada a hora de Renzi. Tal como os seus imediatos antecessores, Letta e Mario Monti, o novo primeiro-ministro ascendia ao cargo sem passar por eleições. Letta fora chamado para formar governo depois das tentativas fracassadas de Pier Luigi Bersani, que venceu as legislativas de 2013. E Monti havia sido incumbido da missão de liderar o executivo depois da queda de Silvio Berlusconi, em 2011.

Posicionado no centro do espectro político e visto como um herdeiro da linhagem ideológica do britânico Tony Blair, Matteo Renzi apresentou-se como o homem que queria limpar a política italiana. Prometeu “uma reforma por mês”. Até agora a contabilidade não é tão linear, mas algumas alterações, nomeadamente na lei do Trabalho, mostraram que tinha intenções de provar que o prometido era devido.

Dois dos seus maiores desígnios eram a mudança da lei eleitoral – no sentido de facilitar a obtenção de maiorias parlamentares – e uma alteração constitucional retirando poderes ao senado. A primeira está feita. A segunda irá a referendo ainda durante este ano. A lei magna italiana, que data da segunda metade dos anos 40, foi desenhada na ressaca na guerra e do fascismo, com o objetivo de tentar garantir que, constitucionalmente, nunca mais seria possível o país descambar para um regime autoritário.

Apesar das boas intenções dos legisladores, a principal consequência tem sido uma profunda instabilidade política: o governo de Renzi é o 63.º executivo em 69 anos. O objetivo do primeiro-ministro é conseguir que os italianos aprovem o seu plano de reduzir drasticamente os poderes do senado.

Essa é a sua próxima grande batalha e pode revelar-se a derradeira. Renzi já prometeu sair de cena caso perca a votação. Uma sondagem revelada nesta semana pela estação televisiva TG7 mostra que 34% dos eleitores tenciona votar contra a reforma, 30% a favor e 36% continua indeciso.

Se vencer, o mais provável é que Renzi a seguir convoque eleições para tentar reforçar-se com a legitimidade que advém do voto popular. Desde que ascendeu à liderança do partido já enfrentou dois desafios eleitorais, as europeias de 2014 e as autárquicas deste ano. Nas primeiras, com 41% dos votos, conseguiu uma estrondosa vitória, obtendo a mais alta votação de qualquer partido em Itália desde 1946. Nas segundas levou um murro no estômago. Das seis cidades mais importantes em disputa, conquistou apenas Milão e Bolonha. Roma e Turim perdeu para os populistas do Movimento 5 Estrelas, em Nápoles nem sequer chegou à segunda volta e em Trieste sucumbiu perante o candidato da direita.

Árbitro e escuteiro

Num longo artigo publicada na revista The New Yorker em 2015, a jornalista Jane Kramer escreve que Renzi lhe confidenciou que a sua personalidade é o resultado de duas experiências muito específicas que viveu durante os anos de juventude. Durante quatro anos foi árbitro de futebol em jogos amadores – “tinha que decidir em segundos, isto é falta, isto é cartão vermelho” – e, durante 15, fez parte dos escuteiros, apaixonando-se então pela causa pública e pelo serviço comunitário. Foi aí que aprofundou a cultura católica que lhe fora passada pela família e que conheceu a mulher, Agnese Landini. Ela é professora. Dá aulas de Italiano e Latim num liceu público em Florença. Casaram em 1999 e têm três filhos.

O Demolidor que quer transformar Itália, tem também a ambição de reformar a Europa. Renzi, que tinha acabado de sair da casa dos 20 quando Angela Merkel chegou ao poder na Alemanha, tem vindo a reclamar mais respeito pelo país. “Se queremos uma solução europeia para o problema dos refugiados, não faz sentido que Merkel primeiro fale com Hollande e depois telefone a Juncker e que eu só descubra mais tarde pelos jornais”, disse, em janeiro deste ano, numa entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Agora, depois da cimeira de Bratislava, sublinhou que se a Europa não avançar rapidamente com um plano, a Itália lidará sozinha com a questão. Resta saber se o referendo será o fim da linha para Renzi. “Se perder vou para casa e faço outra coisa qualquer com a minha vida. Tenho 41 anos. Posso fazer tudo com um sorriso”, disse à Vogue num extenso perfil que aparece publicado na última edição da revista.

Reproduzido de Diário de Notícias