Entrevista: Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial

Klaus Schwab [Wikimedia Commons]Entrevista concedida pelo fundador do Fórum Econômico Mundial Klaus Schwab ao jornalista Marcelo Lins para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (17h30), quartas (15h30), quintas (6h30) e domingos (14h05).

Criado pelo economista alemão Klaus Schwab como Fórum Europeu de Gestão, em 1971, o Fórum Econômico Mundial foi rebatizado assim em 1987. E com razão, afinal, ao longo dos anos, o que era um encontro anual de empresários na pacata e exclusiva Davos, nos Alpes Suíços, passara a atrair além de executivos, chefes de Estado e de governo e integrantes de organizações multilaterais. Uma coisa não mudou nesses 46 anos: o homem à frente do evento. Em visita ao Brasil para planejar a edição latino-americana do fórum, em 2018 em São Paulo, Klaus Schwab falou ao Milênio. Ressaltou a importância das mudanças recentes e das que virão na economia e no trabalho, mudanças que são a paixão e o tema do mais recente livro de Schwab, A Quarta Revolução Industrial.

Marcelo Lins — Professor, vivemos numa época em que se questiona cada vez mais a importância de instituições multilaterais, como por exemplo a ONU, que é a maior de todas. E, nos tempos atuais, uma instituição como o Fórum Econômico Mundial (FEM) ganha importância enquanto fórum, local de discussão e também como plataforma para coletar dados econômicos. O senhor achava que o FEM teria tanta importância há quase meio século, quando teve a ideia de criá-lo com sua esposa?

Klaus Schwab — Está muito claro que todos nós fazemos parte de uma comunidade global. Há algumas questões que exigem a cooperação global, e exigem cooperação não só entre governos, mas também entre empresas e governos, então o Fórum Econômico Mundial respondeu a uma necessidade, e agora nós somos a organização oficial… O FEM também é uma organização internacional oficial, mas não somos uma daquelas organizações tradicionais multilaterais governamentais. Creio que as pessoas acham que o Fórum Econômico Mundial pode dar uma contribuição particularmente positiva para tratar dos muitos desafios que temos no mundo. Independentemente de todos os, digamos, movimentos antiglobalização, acho necessário existir uma organização que uma as pessoas para tratar de assuntos como terrorismo, aquecimento global, etc. Nós não vivemos sozinhos neste planeta.

Marcelo Lins — Mas durante muitos anos as pessoas viam o Fórum Econômico Mundial alinhado a uma certa corrente econômica e até política. Pode-se dizer que o FEM não tem nenhuma afiliação política?

Klaus Schwab — Não, nós nunca fomos alinhados ao chamado neoliberalismo. No entanto, achamos que é o empreendedorismo que cria desenvolvimento econômico, e o desenvolvimento econômico cria progresso social. Progresso social sem desenvolvimento econômico não seria possível. E nós defendemos esses princípios, mas também achamos que a globalização requer uma estrutura legal. Nesse aspecto, o que aconteceu nos últimos anos merece crítica. Temos de incluir os interesses de quem está do lado perdedor do processo de globalização. E eu já tinha escrito em 1996, em um editorial do New York Times, que a globalização sem a solidariedade entre perdedores e vencedores não poderia ter sucesso e que veríamos uma reação. E foi exatamente o que aconteceu nos últimos anos.

Marcelo Lins — Eu me lembro que no relatório de risco global de 2017, produzido pelo FEM, o senhor listou a desigualdade como a maior tendência para os próximos dez anos. Acha que o mundo está condenado a ser cada vez mais desigual, ou há uma saída para essa desigualdade?

Klaus Schwab — É claro que podemos fazer muita coisa através de sistemas tributários, etc., através de requalificação e treinamento para evitar uma lacuna que cresça descontroladamente, mas devo acrescentar que estamos vivendo na era da quarta revolução industrial, que é uma transformação tecnológica. Eu menciono algumas palavras-chave: robotização, impressão tridimensional, inteligência artificial e assim por diante. Isso tudo vai mudar o mundo muito rapidamente, e, assim como as revoluções industriais indústrias anteriores, vai levar à obsolescência de algumas habilidades. Precisamos de novas habilidades.

Em 2016, o Fórum Econômico Mundial lançou um relatório alertando que a automação poderá acabar com 7 milhões de empregos até 2020. Além da China e da Índia, o Brasil estará entre os países com maior número de trabalhadores ameaçados de perder empregos para as máquinas. Por aqui, 50% dos atuais postos de trabalho poderão ser automatizados. Quase 54 milhões de um total de 107 milhões de vagas no país. Entre os setores com maior percentual de empregos automatizáveis do Brasil estão: a indústria, com 69% dos postos, em seguida a hotelaria, com 63% e as empresas de transporte, com 61%. – Trecho do Relatório Fórum Econômico Mundial/2016

Klaus Schwab — Portanto o desafio é: como criamos as habilidades necessárias para atender às empresas, às indústrias e aos serviços no futuro?

Marcelo Lins — A quarta revolução industrial chegou para ficar e está remodelando nosso mundo, nossas relações sociais, nossa vida diária em casa com todos os aparelhos que temos, mas principalmente no trabalho e na forma como enxergamos o trabalho. O que acha que está em jogo num futuro próximo em termos de relações de trabalho?

Klaus Schwab — Se olharmos as estatísticas, cerca de 50% dos postos de trabalho nos EUA estão ameaçados pela quarta revolução industrial, ou seja, eles podem ser substituídos por inteligência artificial, robôs, etc. Então nós, enquanto sociedade e enquanto esforço conjunto entre empresas, governos e sociedade civil, temos de descobrir como criaremos os sistemas de treinamento necessários para requalificar as pessoas o máximo possível. Pessoalmente, eu acredito que vamos precisar de mais pessoas no setor social no futuro com o envelhecimento da sociedade. Ainda temos pessoas demais que são pobres e que precisam de apoio, não apenas financeiro, mas apoio para capacitação profissional, para serem capazes de se sustentar e servir a sociedade de maneira útil.

Marcelo Lins — Há alguns anos eu tive a chance de entrevistar o professor Zygmunt Bauman, e ele falou com preocupação de algo de que já vi o senhor tratar, que é a ideia do “precariat”. Pode explicar o que é e como encarar esse problema nos dias de hoje?

Klaus Schwab — É exatamente o medo de perder seu… Se você sabe que, nos próximos 5 ou 10 anos, seu trabalho, sua posição, seu emprego está ameaçado por, digamos, um robô, é claro que vai temer, você sente medo e sente que está numa situação muito precária. No passado nós falávamos no proletariado, que eram as pessoas sem especialização, de baixa renda, etc. Hoje existe essa expressão, “precariat”, para se referir a pessoas que ainda estão empregadas, mas que sabem que algum dia, talvez aos 50 anos, vão perder seu emprego. Então é claro que estão enfrentando uma crise de identidade, ficam muito fragilizadas. Esse foi um dos motivos do sucesso eleitoral do presidente Trump com exatamente essa nova faixa da população, que podemos considerar como sendo o “precariat”.

Marcelo Lins — Ainda falando sobre a quarta revolução industrial, sabemos que o senhor gosta muito desse assunto, é o título do seu livro, um livro que foi discutido mundialmente. Falamos um pouco sobre as mudanças no ambiente de trabalho e na própria função do trabalho, mas há outros desafios que a quarta revolução industrial traz. Quais são eles?

Klaus Schwab — O primeiro é a velocidade. Muitas coisas que eu descrevi no livro há 18 meses foram consideradas ficção científica, mas estão se tornando realidade rapidamente, basta olharmos os carros autônomos, os robôs, a inteligência artificial, os drones e assim por diante. Essa é uma diferença que é um elemento característico da quarta revolução industrial. Mas todas as revoluções anteriores mudaram nossa forma de fazer as coisas, nos tornaram mais produtivos. Mas a quarta revolução industrial nos modifica, até certo ponto, muda nosso comportamento, muda nosso comportamento como consumidores, como nos comunicamos, como produzimos. Não é apenas uma questão econômica relacionada a modelos de negócio, ela muda a sociedade. E, na minha opinião, como vamos dominar essa quarta revolução industrial é o maior desafio para a humanidade no momento.

Marcelo Lins — Em relação ao fenômeno Trump nos Estados Unidos, alguns analistas o rotularam como o triunfo das pessoas esquecidas pela globalização. E também vemos a tendência do nacionalismo crescendo na Europa e os desafios que ele impõe à União Europeia, ao bloco europeu e a todas as interações que foram construídas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Acha que há algo ameaçando a globalização? Existe algum sinal de que a globalização vai recuar a esta altura ou vai haver apenas um ajuste?

Klaus Schwab — Não. Primeiro, a globalização é equivalente à industrialização: é impossível detê-la. Nós estamos crescendo juntos e temos de lidar com as questões globais. Mas se eu analisar o que aconteceu, a mudança é tão rápida e o mundo se tornou tão complexo que as pessoas se perguntam: “Qual é o meu propósito no mundo?” Foi isso que aconteceu no Brexit, quando as pessoas disseram: “Queremos reassumir o controle.” Está acontecendo nos EUA, onde se sente que, se tornando mais nacionalista, pode-se preservar os postos de trabalho do país. Mas temos de admitir que o mundo é complexo e exige respostas complexas para as questões e os problemas. E o que vemos agora é uma tendência populista, na qual se diz: “Nós temos a resposta para você. É uma resposta muito simples. Devemos voltar a ser nacionalistas, devemos cuidar de nossos interesses e esquecer os outros”, mas essas respostas não são suficientes para as questões complexas que enfrentamos.

Marcelo Lins — Há alguns anos, parecia que as economias emergentes estavam quase prontas para assumir o lugar das economias mais tradicionais do século 20 e, pelo menos para o Brasil, não parece que essa profecia se confirmou. Como o senhor vê as economias emergentes hoje?

Klaus Schwab — Acho que não se pode generalizar. Ainda temos a China e a Índia crescendo 6,5% ou 7%. Infelizmente, o Brasil até certo ponto perdeu seu impulso, mas pelo que estamos vendo em termos das reformas que estão acontecendo aqui e das investigações dos casos de corrupção, estou confiante de que o Brasil vai acelerar seu crescimento e voltar a ser uma economia emergente com crescimento acelerado.

Marcelo Lins — Partindo desse ponto, como diria que o Brasil é visto hoje por nossos parceiros e amigos estrangeiros? Porque, olhando de dentro para fora, a situação parece muito complexa e difícil, mas como o senhor vê o Brasil?

Klaus Schwab — Acho que cada país tem de lidar com os próprios problemas, mas o Brasil me parece se voltar muito para dentro, se concentrar demais em seus próprios problemas, o que é correto, mas não devemos esquecer que o mundo se desenvolve muito rapidamente. Neste momento a China está atingindo a importância e o tamanho dos EUA, ou seja, se torna realmente uma potência econômica, mas, por outro lado, não devemos esquecer que a China ainda precisa integrar centenas de milhões de pessoas nesse processo de criação de bem-estar, de mudança do interior para as cidades. Portanto, a China hoje é, de certa forma, é um mamute econômico, mas, assim como o Brasil, tem de solucionar seus problemas internos, como falta de inclusão e criação de empregos para todos. Nos dois casos, no da China e do Brasil, estou muito otimista em relação ao futuro.

Marcelo Lins — O seu livro já vendeu mais de 500 mil cópias em alguns países asiáticos. Não vendeu tanto assim aqui no Brasil, mas o senhor se vê hoje mais como escritor, como acadêmico ou o quê? Como Klaus Schwab define Klaus Schwab?

Klaus Schwab — Eu me vejo como alguém que absorve as opiniões e ideias de muitas pessoas. Nós temos provavelmente a melhor rede do mundo em alto nível, mas também temos uma geração de jovens composta por pessoas entre 20 e 30 anos. Eu destilo todas essas ideias e tento dar forma de maneira intelectual à agenda global.

Marcelo Lins — Falamos um pouco sobre inclusão na nossa conversa, e eu sei que o trabalho do FEM é seu e também de sua esposa. Eu gostaria que o senhor comentasse sobre o papel da mulher na economia e na sociedade de hoje e sobre a inclusão da mulher neste mundo em constante mutação e no processo de decisões importantes.

Klaus Schwab — Acho que não é apenas a questão da mulher, mas da feminilidade. Precisamos, principalmente numa realidade robotizada, mais dessas dimensões que as mulheres representam, ou seja, sensibilidade, compaixão e imaginação. Então eu sou um grande defensor da paridade de gênero, não só de gêneros, mas da feminilidade e da masculinidade em tudo que fazemos, nas decisões política e econômicas.

Marcelo Lins — Que tipo de coisa alimenta sua esperança num futuro melhor?

Klaus Schwab — Principalmente a nova geração. Nós nos tornamos, até certo ponto, céticos, muito absorvidos pelos detalhes de nossos problemas atuais. A nova geração é realmente muito mais orientada para o mundo, para o social, então eu acho que essa é uma geração que não devemos negligenciar, que tem a atitude certa, mas temos de dar a ela os meios e a educação para permitir que ela prospere e contribua para a melhoria da situação do mundo.

Reproduzido de Conjur